Viajar é conhecer pessoas, quer você queira, quer não

Fizemos há alguns meses uma oficina de escrita com a Gaía Passarelli, e este foi o meu resultado: uma crônica sobre a certeza de que vamos conhecer pessoas durante viagens e a importância disso. Espero que goste. Ah, e diz pra gente se quer ver mais conteúdo desse tipo por aqui! 😉

Eram 5h da manhã e, entre confirmações de dados, carimbos e longas sessões de digitação, seguia conversando como se não tivesse qualquer preocupação na vida

1º de abril

— E ele faz a parte dele na casa? Lava o banheiro? Homem é bom pra isso, esfregar o chão, o vaso.

Ela assentiu, sem conter o riso. Desengonçado social que sou, sorrir me foi um pouco mais trabalhoso.

— Muito bem. Já vale pela academia. — Continuou o agente de imigração com o enorme sorriso no rosto.

Eram 5h da manhã e, entre confirmações de dados, carimbos e longas sessões de digitação, seguia conversando como se não tivesse qualquer preocupação na vida. Exatamente o que esperávamos de Las Vegas.

— Minha filha ia amar esse brinco. Compraram no Brasil? Preciso conhecer o país de vocês.
Ela confirmou, também sorrindo. Uma pequena estrela de acrílico preto em cada orelha. Já o tinha há anos.

Agradecemos, nos despedimos e, logo depois, nos voltamos para responder com um aceno à última fala do agente:

— Sejam bem-vindos!


A voz parecia vir do além naquele parque deserto em uma manhã de inverno em Chicago

6 de abril

— Sabe, eu voltei do Brasil faz pouco tempo.

A voz parecia vir do além naquele parque deserto em uma manhã de inverno em Chicago.

— Vocês são de lá, né?

Localizamos quem falava conosco às nossas costas e nos viramos. Encontramos um policial que parecia nos agradecer por amenizar seu tédio.

— Aprendi um pouco de português há uns anos. Tenho um filho lá no Brasil. — Prosseguiu, depois de termos confirmado nossa origem.

Soubemos que se casou com uma brasileira na Bahia, mas a união não durou muito. Agora passa as férias com o filho no nosso litoral.

— Só preciso levar R$ 10 quando voltar ao Brasil. O Real caiu demais!

Era 2015, a alta do dólar chegando ao auge da época, ultrapassando os R$ 4 pela primeira vez. Já tínhamos ficado dolorosamente cientes da situação cambial durante nossa viagem de carro naquela semana.

Eu começava a pensar que devíamos ter ido para Estocolmo, onde li que ninguém olha pra ninguém e pombos pousam no seu ombro por pena sem que ninguém repare, quando o policial, levemente atribulado, reticente, articulou reminiscências e saudades entorpecidas num derradeiro entusiasmo:

— Sinto muita falta do sol quando volto, mas logo chega nosso verão. Vocês precisam voltar no verão, o parque fica cheio de gente tomando sol. Todo mundo sai de casa com um sorriso no rosto.

A imagem da felicidade de um dia quente fez com que eu voltasse a me dar conta do vento, que não deixara de zunir durante toda a conversa à beira do Lago Michigan.

Logo em seguida nos despedimos e, finalmente, pudemos voltar a tremer de frio sem qualquer vergonha.


O rosto atrás do balcão do pequeno restaurante italiano na periferia de St. Louis deixava claro: não haviam sido poucas, nem devidamente espaçadas, as dificuldades na sua vida

14 de abril

— Vocês vão conhecer o país de um jeito que a maioria de nós nunca vai conseguir.

O rosto atrás do balcão do pequeno restaurante italiano na periferia de St. Louis deixava claro: não haviam sido poucas, nem devidamente espaçadas, as dificuldades na sua vida.

— Eu, por exemplo, mal saí da cidade.

Adriana nasceu e cresceu perto dali, quando o bairro ainda era o porto seguro dos ítalo-americanos da cidade. Hoje a vizinhança se esforça para manter a aparência de reduto italiano e atrair visitantes, mas as portas fechadas que vimos no caminho mostram que são poucos os pequenos negócios que resistem.

Ainda assim, não era possível ver qualquer tristeza no olhar de Adriana. Os olhos brilhavam enquanto nos advertia sobre o frio que poderíamos enfrentar no deserto dali a uns dias, ao passarmos pelo Mojave.

Fiquei pensando em como retribuir toda a sincera alegria que demonstrava por alguém que acabara de conhecer, e que gastou muito pouco no seu restaurante. Do alto do meu privilégio de turista a milhares de quilômetros de casa expandindo seus horizontes, não soube. Ainda não sei.
Paguei a conta e agradeci a refeição e a hospitalidade.

Enfim, viajar vai nos expor ao desconhecido e a desconfortos de qualquer jeito, por que não então tirar proveito disso?

 

 

De novo: se você quer ler mais crônicas de viagem por aqui, avisa a gente! Ah, e temos um outro texto já publicado aqui que discute como viajar nos torna melhores.

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